Há uns anos, durante um programa de Liderança no IESE, um professor perguntou a uma sala cheia de executivos internacionais: “Quão importante é a aprendizagem na vossa vida?”
A resposta foi unânime:
A coisa mais importante de todas!
A base da nossa evolução!
A razão de existir!
Foi bonito, foi inspirador. Mas… será mesmo verdade?
Na teoria, todos defendemos a aprendizagem como valor central. Na prática, o tempo escasseia, os prazos apertam, os calendários complicam-se e — surpresa — ficamos sem tempo para aprender, sem tempo para pensar. Não porque não queiramos, mas simplesmente porque a vida mete-se no caminho.
No entanto, aprender coisas novas já não é apenas um luxo para quem é curioso, é uma questão fundamental da vida.
O que sabemos tem um prazo de validade
Durante muito tempo, o que estudávamos quando tínhamos 20 anos, era suficiente para os 20 anos seguintes. Mas o mundo teima em mudar. Os problemas mudam de natureza e o que funcionava ontem, hoje já não se aplica.
Todos já passámos por isto: enfrentar uma situação difícil e perceber que, se fosse há uns anos, seria impossível lidar com ela, simplesmente porque não tínhamos as competências, a resistência ou a capacidade para levar bem o assunto… Não basta ter estudado ou aprendido uma competência, temos que estar sempre a atualizar o que sabemos. Tal como um produto do supermercado, o que sabemos também tem um prazo de validade.
Marshall Goldsmith sintetizou de forma eloquente “What got you here, won’t get you there”: O que nos trouxe aqui não é suficiente para nos levar onde vamos. O que sei hoje não é suficiente para os próximos anos.
Aprender tem um começo
Comecemos pelo princípio: todos temos memórias mais ou menos traumáticas de aprender coisas na escola, universidade ou de algum chefe, que não tiveram utilidade ou sentido algum.
Que recordações guardo da escola e dos professores?
O que mais gostei de aprender?
Tinha hábito de ler ou explorar novas ideias na escola ou faculdade?
Como essas experiências influenciam a minha atitude hoje?
Importa reconhecer que experiências carregamos, e saber largar sem rancor o que não nos serviu. A nossa biografia não tem que ser o nosso destino.
Aprender, sem distração
Por vezes evitamos aprender: dá-nos preguiça e nem vemos grande problema de continuar a trabalhar como trabalhamos… E está tudo bem… mas aceitemos o preço a pagar: poder tornar-me irrelevante mais rápido do que imagino.
Parte do problema atual é que estamos inundados de informação, estímulos e solicitações. A acrescer a esta hiperconectividade, condicionámos a nossa cabeça a pequenas doses de prazer cada vez que vemos um novo título, imagem ou vídeo. Damos por nós num scroll inútil e perpétuo com vídeos de gatinhos, pensamentos motivacionais, limpeza de sofás, tendências de moda e outras coisas igualmente essenciais…
Devemos re-educar a nossa cabeça para aprendizagem de qualidade. Ver vídeos de 30 segundos não é aprender, é distrair.
Não tem problema nenhum querermos um pouco de distração, mas não confundamos a natureza das coisas: aprendizagem requer tempo, paciência, pensamento e por fim prazer. A distração requer uns instantes, impaciência, falta de critério e satisfação imediata. São coisas muito diferentes, quer no processo quer no resultado final.
Como somos facilmente seduzidos por mais um estímulo – e por termos sempre um ecrã a menos de 1 metro – é bom criarmos rotinas e espaços libertos de distrações, para pensamento de qualidade e para aprendizagem genuína. Devemos reservar tempo na agenda para aprender e pensar. Triste vida que faz tudo mas não sabe porque o faz.
Aprender, em profundidade
Aprender não se trata de repetir o soundbyte da moda ou ser um catavento das tendências que todos repetem à exaustão. Recentemente ouvi um jovem inteligente a contar de um estudo interessante que tinha sido feito sobre ultrapassar maus hábitos. Foi convincente e seguro, mas tudo o que disse foi uma repetição de um vídeo de 50 segundos (que por sinal eu também já tinha visto).
Confundimos o verdadeiro domínio dos temas com comentários de café.
Como nos recorda a história apócrifa de Max Planck, o famoso físico alemão, que depois de ganhar o Prémio Nobel, andou pela Alemanha a dar a mesma palestra sobre física quântica. Com o tempo, o seu motorista memorizou a conferência e propôs trocarem de papéis, porque devia ser chato estar a repetir sempre a mesma rotina: Ele daria a conferência e o professor estaria sentado como motorista. O professor concordou…
Então o motorista deu uma longa palestra sobre mecânica quântica, após a qual um ouvinte fez uma pergunta extremamente difícil… Sem perder a compostura, o conferencista respondeu: “Estou surpreendido que numa cidade tão avançada como Munique eu receba uma pergunta tão básica… Vou pedir ao meu motorista para responder!”
Há assim uma diferença entre dois tipos de conhecimento: o conhecimento Planck – de quem realmente sabe – e o conhecimento do motorista, de quem sabe dizer coisas mas sem perceber realmente do que está a falar.
Escolhamos aprender em profundidade.
Aprender, com humildade
Ouvi recentemente um professor experiente, que estuda filosofia há 40 anos a afirmar com um sorriso ao falar sobre um tema que claramente dominava: como vocês sabem, quanto mais estudamos um assunto, mais dúvidas temos…
Disse-o sinceramente: quanto mais estuda, parece que menos sabe. Ora aqui está a verdadeira postura de aprendizagem. Uma combinação de humildade e inquietação. O desejo de compreender mas aceitando a nossa limitação.
Quando foi a última vez que estudei um assunto novo?
Que competências desenvolvi nos últimos 2 anos que não tinha?
Quanto tempo da minha semana está reservado a estudar, ler e aprender?
Para se aprender tem que se largar a arrogância e a pretensão do domínio de tudo, e ser simples, curioso e humilde como uma criança.
Aprender, sem querer
Podemos aprender voluntariamente: quando nos dedicamos a um tema, um estudo, uma competência. Lemos, falamos, escrevemos. E isso é excelente. Mas muitas vezes aprendemos também sem querer. Porque a aprendizagem é o que resulta depois de enfrentar momentos inesperados e falhanços mais ou menos públicos. Não nos passava pela cabeça aprender aquilo, mas a realidade do trabalho e da vida transformaram-me e aprendi coisas novas.
Como vemos, a aprendizagem acaba por ser inevitável.
Mas a qualidade e a intenção com que a fazemos não é. Importa ser deliberado.
Aprender.
Aprender é uma coisa maravilhosa! Temos que redescobrir a beleza de aprender o que não sabemos. É perigoso movimentar-nos em ambientes onde se valoriza a aparência da certeza ou conhecimento. Mais importante que ter as respostas certas (que ninguém tem) é saber como aprender o que precisamos.
Aprender é uma necessidade confirmada pelo que o mundo nos exige, mas importa cultivar o prazer da aprendizagem.
Adam Grant dizia que nos rimos de quem ainda usa o Windows 95, mas agarramo-nos a opiniões formadas em 1995… Temos que aprender e reaprender, para estarmos em dia.
Voltemos ao que é essencial: Ler um bom livro. Ter uma conversa estimulante. Aprofundar um assunto. Manter a curiosidade. Repensar o que se sabe, ganhar novas perspetivas, adaptar-nos, ler opiniões diversas, debater e pensar pela nossa cabeça.
Que da próxima vez que alguém nos pergunte: quão importante é a aprendizagem na vossa vida, que a resposta não seja só bonita, seja vivida.