Subir a montanha mais próxima

Setembro 30, 2025

“Não precisamos de clareza total para dar o próximo passo.”

Alison Levine (alpinista)

Muitas vezes, encontramo-nos perante uma encruzilhada: demasiadas opções, interesses e caminhos possíveis, mas sem um fio condutor claro, sem uma direção concreta.

Num ambiente que valoriza a velocidade e a disponibilidade constante, aceitamos desafios apenas porque surgem. Somos guiados pelo medo de perder uma oportunidade, de ficar para trás, de não acompanhar o ritmo.

Mas na verdade, não estamos a perder o comboio, estamos a perder o protagonismo.

Esta multiplicação de possibilidades pode parecer sinónimo de liberdade, mas é na realidade uma armadilha: manter tantas opções em aberto deixa-nos bloqueados. Ao evitar o compromisso com um caminho, deixamo-nos levar pela maré e damos por nós em círculos.

Quando procuramos propósito, motivação ou realização é comum acreditarmos que é necessário encontrar a grande paixão ou o objetivo de vida antes de dar qualquer passo. Que devemos ter a certeza absoluta do destino final antes sequer de começarmos a caminhar, que só devemos agir quando tudo estiver planeado, ,mas isso é paralisante… Como posso saber o meu destino se tudo o que sei é que não estou satisfeito com o que faço hoje?

Começa onde estás, não onde gostarias de estar.

Tentar maximizar tudo desde o início implica encarar a vida como um problema matemático em vez da vida ser uma experiência fluida, orgânica e muitas vezes surpreendente. A vida não é um problema a resolver, mas um processo a viver.

Quem nunca se surpreendeu ao olhar para trás e ver as voltas que a sua vida deu e que nunca poderia antecipar? E que todas essas curvas e caminhos foram importantes e necessários?

Não pretendemos escolher a melhor vida num exercício teórico e abstrato, mas olhar para a realidade – minhas capacidades, circunstâncias e possibilidades – e optar por um passo concreto.

Devemos começar onde estamos, na nossa vida simples e concreta, não onde eu acho que deveria estar. Devemos partir da aceitação de onde estamos no nosso caminho e remover a pressão auto-imposta, que pouco ajuda. Temos que afirmar: começa onde estás, não onde gostarias de estar.

Subir a montanha mais próxima.

Em vez de perseguir um grande objetivo abstrato – alcançar o cume ideal – propomos assim algo mais prático e enraizado: subir a montanha mais próxima. Ou seja, não o melhor caminho de todos, mas o próximo passo mais necessário.

Trata-se de uma estratégia de maximização local em vez de global. A tentativa de encontrar a coisa certa – o trabalho, o propósito ou a motivação ideal – antes de qualquer experiência concreta, é ignorar que a informação necessária para tomar uma boa decisão geralmente surge depois de algum percurso já ter sido feito, depois de experimentar diferentes possibilidades. Naturalmente não se trata de vaguear sem rumo, mas aceitar que o caminho faz-se aos poucos e em pequenos passos. Temos que nos por em movimento, porque o equilíbrio só se encontra em movimento.

Vamos então subir à montanha mais próxima… e do alto veremos o que estava escondido. Ganharemos uma nova perspetiva de estar numa posição mais elevada, percebendo de onde vimos e que caminhos se abrem para o futuro.

A partir daí, poderemos recomeçar o caminho, percebendo a que nova montanha ambicionamos subir, e empenhar-nos nessa viagem, com um pequeno passo, sabendo que também desse cume veremos novas coisas que hoje não imaginávamos deste sítio e circunstância.

Então, por onde começar? Qual é a montanha mais próxima que tenho de mim?

Não esperemos pelo passo perfeito ou a certeza absoluta. Caminhemos. A montanha mais próxima está à nossa espera.

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